Uma mulher contemporânea: a arte de Juliana Lima Vasconcellos

A icônica arquiteta mineira divide com a ISLA o seu olhar único sobre moda, vida e design

Moda e arquitetura podem não se conectar à primeira vista, mas ambas possuem mais relações do que imaginamos. As duas formas de arte possuem a intenção de explorar barreiras, do corpo e espaço. Além disso, ambas representam o nosso ser mais íntimo, exemplificando nossas escolhas de acordo com as nossas vivências, expressam o nosso comportamento e a nossa personalidade.

A história da humanidade pode ser contada através da moda e da arquitetura: o tipo de vestimenta, o shape de uma bolsa e a tonalidade da maquiagem contam histórias assim como os estilos das construções, os tamanhos dos cômodos e a escolha dos mobiliários.

Juliana Lima Vasconcellos é uma mulher que analisa a história através da moda e da arquitetura. Arquiteta, graduada pela Universidade Federal de Minas Gerais, Juliana é ex-modelo e adoradora do poder da moda como forma de expressão pessoal. Sua admiração também se estende a arte e a música clássica, provando a mulher multifacetada que é.

Ju encontrou a sua paixão em duas formas do design: de interiores e móveis. Suas criações já foram apresentadas em inúmeras feiras, como Art-Rio, MADE e Pad Paris, e foram estampadas em páginas de revistas consagradas como a norte-americana AD – Architectural Digest e a Casa Vogue Brasil.

Cidadã do mundo, ela vive na ponte aérea Rio–São Paulo–Belo Horizonte e já viveu em cidades como Londres, Barcelona e Nova York. A arquiteta possui um olhar singular para a natureza, cinema e artes visuais, transformando-as em inspirações para projetos criativos e atemporais.

Considerada uma das arquitetas brasileiras mais proeminentes de sua geração, Ju sintetiza o espírito da mulher ISLA: forte e única, sem deixar de ser feminina. Em uma ode ao design e às texturas, Ju foi nossa modelo no editorial que você confere nesta página. Fotografa por Gustavo Romanelli em sua casa em Belo Horizonte, ela elevou o poder das nossas icônicas Bolsas de Plumas, mesclando-as com criações suas, como as cadeiras da coleção Giraffe, que foram adquiridas pelo Museum of Arts and Design de Nova York, e que agora fazem parte da coleção permanente do Museu. 

Nesse Dia Internacional da Mulher,  entenda o motivo de Ju ser uma mulher inspiradora, em uma entrevista exclusiva para a equipe ISLA!

 

Q&A com Juliana Lima Vasconellos

 

ISLA: Você trabalha/trabalhou em dois mercados dominados por mulheres, o da arquitetura e o da moda. Por que você acha que o olhar feminino é tão importante nessas duas áreas?

JLV: O mercado de Design de Interiores é dominado por mulheres. No início da carreira, trabalhava com incorporadoras, construções, e esse mercado de arquitetura é dominado por homens. Ao longo dos anos, comecei a sentir falta de ter liberdade criativa e migrei para o design de interiores e de móveis, onde posso explorar esse lado da criação mais livre. Os homens são muito criativos, mas a mulher tem menos medo de se aprofundar nas suas questões e nos seus sentimentos. Talvez, por isso, as mulheres predominam nessas duas áreas criativas. Elas não têm medo de ir a fundo, além de serem mais sensíveis e suaves.

ISLA: Seus projetos misturam o clássico e o contemporâneo de uma forma extremamente harmônica. Ao longo dos anos, como você treinou o seu olhar e o que foi essencial para você apurar o seu bom gosto?

JLV: Tenho um apreço muito grande pelo o que já foi feito de design e de arquitetura, e dentro desse meio, tem o Clássico. Sou uma pessoa que admira muito a história construída pelas civilizações, e acabo sempre tentando valorizar essa história nos meus projetos. Tenho muita inspiração em objetos Art déco e Modernistas pois são peças clássicas, atemporais, que não saem de moda e que fizeram história. Gosto de valorizar essas peças que foram importantes no contexto histórico de uma época. Gosto de trazer essas inspirações para as minhas criações, sempre com o olhar atual, pois todos os projetos têm que ser contextualizados. Por exemplo, um chalé de estilo europeu tem que estar na Europa. Aqui, temos que criar de acordo com nossa época, clima e estilo de vida. Não gosto de copiar estilos. Mas, para objetos, opto pelo Clássico. Em relação à arquitetura, ela tem que representar o que estamos vivendo, assim como o design e a moda, refletindo o contexto político, social, cultural. Toda a história está impressa nessas manifestações artísticas. O que a gente cria hoje tem que circular dentro dessa linguagem.

ISLA: Como sua paixão por Antoni Gaudí influencia o seu trabalho?

JLV: Gaudí era um arquiteto que tinha uma liberdade criativa e uma inspiração na natureza sem igual. Eu tenho uma paixão pela fauna e pela flora, e acabo buscando nela uma inspiração. Agora, o meu preferido é Oscar Niemeyer. Além de se inspirar na natureza e nas formas femininas – o que eu também faço –, ele possui uma limpeza de função e de estética que eu gosto muito. Gaudí, para mim, é um artista completo, mas traduzindo para algo mais atual, eu olharia mais pra Niemeyer. Apesar de não ser tão contemporâneo (já que ele despontou nas décadas de 50, 60 e 70), eu o acho muito atual. Ele é artístico, escultural, e não tem excesso. É algo bonito, direto, sensual e limpo.

 

ISLA: O que te dá mais prazer: o design de móveis, o design de interiores ou projetos de grandes dimensões?

JLV: Ao longo da minha carreira já fiz projetos de médias dimensões (como terminais rodoviários, prédios e centros culturais) e de grandes dimensões (projetos de urbanismo). Mas hoje amo design de interiores, e adoro incorporar neles, um outro design. A combinação de texturas e de proporções, impressos em escala menor, me traz muita paixão. Tenho muito prazer no que eu faço.


ISLA: Ao longo da sua carreira você teve vários processos colaborativos. Quais as dores e os amores de trabalhar em dupla?

JLV: Atualmente não tenho sócios, mas mesmo assim, gosto de “trocar” muito com quem trabalha comigo. Sempre peço opinião, valorizo o olhar do outro. Sempre gostei de trabalhar em parcerias. Iniciei a carreira como sócia da minha irmã Roberta; depois fui sócia do super arquiteto Carlos Maia; alguns anos depois me associei ao Matheus Barreto e fizemos muitas colaborações com móveis. Quando encontramos uma pessoa que tem uma linguagem estética parecida com a nossa, é muito bom perceber o olhar e o pensamento do outro. Claro que o senso estético tem que ser similar, mas cada um vai ter ideias diferentes, e eu acho isso muito agregador. Gosto muito de ouvir opiniões.

ISLA: Em toda a sua carreira, qual o momento que você considera mais especial?

JLV: O momento mais especial é sempre o atual. Eu vibro muito com cada conquista. É muito engraçado, porque eu esqueço que estou entrando nos 40 anos e fico com a sensação de que eu acabei de me formar, que eu estou começando agora. Te confesso que eu tenho essa impressão de iniciante até hoje, e cada degrau, cada conquista é muito comemorada. Tenho quinze anos de carreira e até hoje penso “não acredito que isso está acontecendo”. É muito bom sentir isso: eu não vejo o tempo passar, me sinto jovem. Continuo muito aberta a aprender, e tenho uma certa humildade pois sigo admirando outros profissionais que estão no mercado a mais tempo. Também admiro os criadores mais jovens que estão fazendo projetos diferentes. Eu tenho esse feeling de apreciar e de querer aprender sempre.

 

ISLA: Qual o projeto mais desafiador que você já concebeu?

JLV: Todos são extremamente desafiadores. A criatividade vem de uma forma muito livre: tem momentos da vida que eu não me sinto tão criativa, pois o operacional do dia a dia acaba me consumindo. Principalmente hoje com os [design] móveis, eu me ocupo muito de área comercial, marketing, faço um pouco de tudo. Tenho uma equipe, mas acabo concebendo ideias em outras áreas. Então, por incrível que pareça, mesmo eu achando que a criatividade não pode ser pressionada, eu funciono sob pressão. Quando eu tenho um deadline, uma feira, uma exposição, eu sou obrigada a produzir alguma coisa e isso me move.

O projeto mais desafiador que eu concebi foi uma coleção de cerâmicas para uma exposição em uma galeria de arte. Eu era a única designer, os outros dois expositores eram artistas visuais. O curador era muito importante – um homem do mundo das artes, que já foi diretor do MAM Rio (Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro) – e por isso aceitei o desafio. Me propus a produzir trabalhos mais artísticos, sem ser um móvel feito por um outro artesão. Eu quis colocar a mão na massa e comecei a frequentar um ateliê de cerâmica. Nunca tinha feito nada com barro. Quis contratar uma pessoa para executar o meu desenho, a minha ideia, em cerâmica mas não tinha ninguém. Botei a mão na massa dois meses antes da exposição. Passei um aperto. Acabei produzindo peças menores do que eu queria, mas foi muito gratificante pois foi um projeto que, desde o primeiro rabisco até a confecção final, foi feito por mim. Eu tive uma colaboração da Lessa que trabalhava comigo, mas foi um trabalho meu do início ao fim. E eu amei: pude colocar meus sentimentos e impressões nesse projeto, onde eu amassei o barro e criei tudo do zero.


ISLA: Tem algum projeto favorito?

JLV: O meu apartamento do Rio de Janeiro. Foi um dos meus primeiros projetos de interiores, pois nos primeiros cinco anos de carreira eu só trabalhei com arquitetura. Formei em 2005 e em 2009 compramos esse apartamento. Eu não tinha experiência nenhuma em interiores e inventei ali alguma coisa. Claro que hoje eu faria tudo diferente, mas foi uma conquista. Eu não tinha tanta pesquisa como hoje, de interiores, de referências, de design. Enfim, foi uma coisa muito instintiva e eu gostei muito do resultado. Agora, mais de dez anos depois, eu dei uma repaginada, e o apartamento vai ser publicado em abril na Elle Décor Americana. Estou super feliz com essa publicação, que é a mais importante pra mim até hoje!

 

ISLA: Quão importante é a moda para você? Como ela influencia no seu trabalho?

JLV: A moda faz parte da minha vida. Não sou ligada em tendências, mas a moda é a expressão humana que mais diz sobre o que estamos vivendo, é a que mais contextualiza o ser humano. Por exemplo, se você vai ao Oriente, lá tem uma forma própria de vestir. É claro que no mundo globalizado as coisas ficaram muito padronizadas, todo mundo tem acesso à informação de moda. Mas ela contextualiza uma época, costumes e moral. Se você vê a moda de 60 anos atrás, ela era completamente diferente, a mulher tinha muito menos liberdade. Inclusive os homens tinham menos liberdade, hoje em dia eles têm total experimentação fashion e eu acho isso maravilhoso.

A maior leitura de uma sociedade, para mim, é na moda, pois é onde as mudanças de comportamento se refletem mais rápido. A arte contemporânea também tem uma forma muito forte de representar o que está acontecendo nos dias atuais, mas a moda é pioneira. Ela define tribos. Você consegue entender, por exemplo, o que um adolescente com estilo punk está querendo dizer com aquela estética; uma mulher que está querendo conquistar tem uma forma de se vestir; uma mulher que está querendo se esconder, tem outra forma. Um homem que se veste mais clássico está querendo se expressar de forma diferente de um homem mais esportivo. Isso é o mais fantástico da moda: a forma de expressar uma personalidade, contextualizar uma cultura, um local, o clima, a época, o costume, a moral, tudo.

A moda influencia totalmente o meu trabalho porque estou sempre olhando e prestando atenção em tudo que eu acho belo e em tudo que me desperta, então eu gosto de ver coisas diferentes e isso me inspira. E dentro disso estão as imagens de moda. Eu amo ver imagens de moda.

 

ISLA: Como você denomina o seu estilo?

JLV: É uma pergunta difícil. Eu diria que eu não gosto de usar o que todo mundo está usando. Quando eu olho uma coisa que eu já vi muito, eu perco o interesse por aquilo. Não sei explicar o porquê, mas é como se eu enjoasse. Mas eu tenho peças há 15 anos e que eu continuo usando. Hoje eu estou em um estilo mais streetwear do que dez anos atrás. Antigamente eu usava mais alfaiataria porque sempre gostei de cortes diferentes. De dois ou três anos para cá, eu estou usando muita calça jeans – que eu nunca usei – e muita camiseta branca. Gosto muito de acessórios diferentes. Não sei definir meu estilo. Mas gosto de streetwear, gosto de estampas e texturas diferentes, gosto de muito volume. Uma roupa com uma volumetria enorme, que muita gente não vai ter coragem de usar, eu vou amar. Acho aquilo uma arte e eu gosto de usar arte no meu corpo. É isso. Não tenho medo de ousar.

 

ISLA: O que você carrega de indispensável na sua bolsa?

JLV: Lip balm e protetor solar. Não uso muita maquiagem, mas esses não podem faltar na minha bolsa.

 

ISLA: Quais mulheres da arte te inspiram?

JLV: A criadora do movimento neoconcretista Lygia Pape; a artista plástica Adriana Varejão; a pintora Tarsila do Amaral; a escultora Claude Lalanne; a artista performática Marina Abramovic; a artista inglesa Tracey Emin; a artista plástica e pintora Carmen Herrera… muitas!

Você pode ter uma das nossas icônicas Bolsas de Plumas, representadas maravilhosamente bem no editorial com Juliana Vasconcellos, clicando aqui!

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